enquanto

can you carry my drink?, i have everything else

27.10.09

senhoras e senhores, a carmencita

a carmencita é em bruto. uma meia-cigana bonita e terrivelmente desperta, olha fundo como mais ninguém sabe, e fala rouca e à boca cheia, como ela diz. tem os cabelos sempre soltos e grandes e uns brincos enormes e belíssimos, que abanam um bocadinho com os jeitos da cabeça. fala de amor como quem faz renda, de tantas vezes que já se apaixonou. já lhe vi o coração partido, e era triste como restos de lume morto, frio, numa manhã cinzenta. fugiu dos pais quando era pequenina e conhece bem as veias de lisboa. não tem medo de quase nada, não tem medo, por exemplo, de dar a mão às pessoas. a carmencita, se não tivese nascido aciganada, seria afectuosa ou talvez até ternurenta. mas o seu sangue corre depressa demais. ri muito alto, chora muito alto, enerva-se com as coisas mais pequenas, e quando se apaixona, a carmencita toda reluz: os cabelos mais brilhantes, os olhos mais fundos, as mãos mais expressivas, as saias mais rodadas. a carmencita reza de joelhos, todas as noites, à beira da cama: “Oh Meu Deus ___” e suspira. quando se sente especialmente devota, reza o terço com umas contas da avó, gastas, que tem guardadas num saquinho de couro, ao lado da imagem de s. francisco.
a carmencita é uma mulher de armas. um dia um fadisteco desses que canta em duas ou três tascas duvidosas quis enganá-la com cantigas. ela avisou-o “Vou dar-te muito trabalho”. já passaram muitos meses, e continuam ele a dar-lhe cantigas e ela a dar-lhe trabalho. “mas às vezes trocamos…” disse-me ela hoje “e quem me dá trabalho é ele a mim”. não consigo dizer se a carmencita está arrebatada. se é desta. não sei porque é que, nem como é que eles, passado tanto tempo, continuam – não sei se ‘juntos’ é a palavra mais certa…um com o outro, pelo menos. mas aí estão eles, a fazer tremer as nossas teorias sobre relações, comunicação, e outras modernices.
“o amor”, diz a carmencita, “não é nada complicado. uu se gosta e pronto, ou não se gosta e pronto.”

as certezas que roubamos, descaradamente

Agora não se diga entre nós “deixa-me”,
e nenhum dos nossos corações se afaste.
Eu irei para onde fores
e da tua morada faço também a minha.
Os teus irmãos e companheiros hoje recebo como meus,
o Deus da tua juventude, eu o amo profundamente.
E quando por fim a morte nos visitar
quero morrer na terra em que morreres
e ser sepultada perto de ti.

do livro de Rute

10.10.09

crítica da faculdade de postar

para onde é que se vai depois de um post sintético a priori?
fácil: para aqui.

5.10.09

penélope despede-se


felizes as que esperam de vestido encarnado, porque serão consoladas.

29.9.09

penélope confessa-se

confesso que esperei a noite inteira pelo barulho da tua chegada ali fora. confesso que pus nessa espera toda a indiferença que pude. confesso que bordei e desfiz, que fiz horas, que me enganei a mim e aos outros, porque não soube nunca deixar de esperar por ti. confesso que pensei que não era capaz, e pior, confesso que fui capaz, que sou. confesso que, naquele dia, me destruiu menos a tua ausência do que a dúvida sobre se ainda saberias dizer o meu nome. não tive ciúmes das tuas aventuras. em nenhuma hora deixaste de me fazer falta. confesso que tive medo quando todas as horas eram abismos em que eu tinha de confiar. confesso que tenho medo ainda, agora que voltaste, que um dia seja o teu coração a ir embora. mas renunciei à certeza há muito tempo

23.9.09

trabalhar é difícil


eu, que dizia que o kant, coitado, tinha o pequeno problema de ser chato, só não dou agora o meu dedo mindinho do pé para trocar o que ando a fazer por um ensaio sobre as antinomias (todas) da crítica da razão pura porque preciso dele para o equilíbrio nos sapatos.

25.8.09

um post sobre alívio

de volta a lisboa. as coisas precisam de um contexto para se entenderem, e eu estou de volta ao meu.

11.8.09

carta aberta (rascunho)

ao cuidado dos senhores da Música no Coração
(que da primeira podem até saber alguma coisa, mas do segundo têm muito pouco)

É com grande tristeza que constato a necessidade destas linhas. Atrevo-me a tomar-vos alguns minutos, mais por delicadeza para com o mundo e por amor à verdade do que, confesso, por alguma noção de dever ou de fidelidade que sinta para convosco. Mesmo assim, um mundo em que não pudéssemos dizer a verdade, mesmo quando para isso usamos meios tão prosaicos como um post num blogue insignificante, e uma prosa tão desornamentada como esta, não seria um mundo onde eu quisesse viver.
Caros senhores, indo directa ao assunto, escrevo-vos para relembrar a diferença entre 'e' e 'ou'. Num país em que toda a gente será, mais tarde ou mais cedo, "mestre", e em que ninguém parece preocupar-se muito com isto, assusta-me - mais, entristece-me - deparar-me com o facto (este sim, bruto) de que esta distinção, por ventura uma das mais elementares da lógica, i.e. do modo como pensamos, é completamente ignorada, ou pior desprezada pelos senhores.
E se é, para mim, quase perfeitamente indiferente que decidam polvilhar o "festival do sudoeste" de espanhóis, há coisas que não posso admitir.
'E' é o operador de uma conjunção: serve para dizer que duas coisas se verificam simultaneamente. Para que, por exemplo, a expressão " 'national' e 'marcelo camelo' " seja verdade, é preciso que aconteça a coisa a que se está a chamar 'national' e a coisa a que se está a chamar 'marcelo camelo'. Já em " 'national' ou 'marcelo camelo' " , é apenas necessário que ocorra um deles - a proposição só será falsa se não acontecerem os dois.
Ora bem, dizer a alguém que esteja a pensar ir ao vosso festival que vai poder ver National, ('e') o Marcelo Camelo, ('e') os Buraka Som Sistema, ('e') a Ladyhawke é uma grande mentira. (e dizer que constam todos do cartaz é uma verdade, mas uma verdade que serve para pouco mais do que para dizer 'já viste como está o cartaz do sudoeste este ano?') Era preciso dizer que se vai poder ver National ou Marcelo Camelo, e Buraka Som Sistema ou Ladyhawke - e do mesmo modo nos outros dias. Isso, ou ter os horários dos concertos disponíveis a tempo de se poder ponderar. Freud (que imagino que já tenham ouvido falar), dizia muitos disparates, mas dizia uma coisa muito certa: começamos por ceder nas palavras, e acabamos a ceder no resto. E eu, meus caros senhores, não posso ceder.
Passar por cima desta distinção, mais do que mentir, é mentir sem coração. No vosso caso, siginifica que alguém (e.g. eu), já de bilhetes na mão, é confrontada com a terrível obrigação de escolher. Talvez os vossos clientes mais existencialistas achem alguma graça a isto, mas eu, confesso, fiquei apenas pasmada: de repente um dia com um cartaz que parecia, vá, engraçado, transforma-se num puro exercício de crueladade, ou, pior, de moralismo.
E isto, mais uma vez, meus senhores, eu não posso admitir.
Agradeço a vossa atenção, e peço-vos que não tornem a fazer de mim parva,
Cordialmente,

3.8.09

vou mostrar-vos o que é desejar um zoom

28.7.09

elegância é olhar para o sítio certo #2


elegância é olhar para o sítio certo


27.7.09

e ainda,

os velhos com EP PARA SACAR

enquanto isso,

21.7.09

sobre ter três meses para escrever uma coisa

evelyn waugh escreveu brideshead revisited em seis.

20.7.09

afinal está tudo bem, muito muito bem

o estado da nação

tango com aristóteles
tanga de freud
missão tang: 9 páginas de concentrado, 20 de sumo

17.7.09

verão é verão

mesmo quando não cumpro o antigo propósito de não estar em lisboa de 15 de julho a 15 de setembro, mesmo na biblioteca a estudar aristóteles, mesmo se tenho coisas na agenda até durante agosto. verão é verão. oh se é.

15.7.09

amdg

a minha desculpa glamourosa
antes morrer deste gesto
amanhã mil dardos gritarão
âncora misteriosa dos grandes
avancem muitos desastrados girassóis

3.7.09

dos nomes

o miradouro da graça chama-se, vi hoje, miradouro sophia de mello breyner anderson.
sinto uma espécie de alívio como quando finalmente se descobre a palavra de que se está à procura para dizer alguma coisa que se tem na ponta da língua.

29.6.09

conferências debaixo de chuva

diria isto noutra lígua, mais apropriada a este tempo estrangeiro, mas, infelizmentente, não sei.
alea jacta est

24.6.09

sabe, ontem só havia duas coisas que me punham nervosa: a roupa que havia de vestir hoje, e o modo de encaixar a vossa proposta no resto das coisas que tenho que fazer (e sim, eu sei que ainda não me propuseram nada...) não gosto muito da pergunta por qualidades & defeitos, e ainda menos da sobre o que é que posso trazer para aqui - mas é isto: fico nervosa com roupa, não me levo muito a sério, mas gosto de fazer bem as coisas.

23.6.09

statement shoes para dia 30 #4

(ou de como se eu não for apanhar sol, ninguém vai acreditar em mim)


Mas, todos sabem e é um lugar comum afirmar, Freud e a Psicanálise deram a volta ao nosso mundo. Esta concepção tem herdeiros de vários tipos, e há um que me interessa particularmente: Richard Rorty

freud, outra vez

(descobri que a combinação vampire weekend + buraka som sistema + new order + lcd sound system resiste a tudo, até Freud, até se estivesse a chover - e não está, até se faltasse uma semana para dia 30 e eu estivesse atrasadíssima - e estou)

estava a escrever 'germ cells' e saiu 'german cells' - não posso ser só eu que acho isto engraçado...as celulazinhas alemãs, muito louras, muito rigorosas, de sandálias e escaldões?

19.6.09

statement shoes para dia 30 #3


desconfio que partir de ‘descrições’ é um bom começo para se falar de ‘optimistas’, ‘pessimistas’, ‘ser melhor’ e ‘ter ou não ter a ver com literatura’, por isso, vou tentar ir falando sobre ‘descrições’, e esperar que, no fim, tenha dito alguma coisa sobre ‘pessimistas’, ‘optimistas’, ‘ser melhor’, etc.
às vezes acontece...


hmm..desculpe?...bom dia. hmmm. sim. não. hmmm...tolstoi?...não, não agora não...sim. não. hmmm. sim, mas o barulho...importa-se de desligar essa máquina horrorosa? sim eu sei que é dia. hmmm mas eu...hmmm não. não...adeusinho. boa noite. bom dia.

16.6.09

happy bloomsday a todos!

caro diário,
hoje chamei todos os meus amigos ingleses e peguei em tolstoi. não quero contar pormenores, se não começo a ficar nervosa com dia trinta. e estou a ouvir uma música inacreditável mas só posso por aqui o link em julho. vamos falar de outra coisa. hoje ganhei um prémio. não, também não quero falar sobre isso. hmmm, caro diário, hoje é bloomsday, e eu - eu estou a ter um grande dia!
cordialmente,



13.6.09

statement shoes para dia 30 #2

vou contar-vos a história dos vários títulos que fui pensando dar a estes 45 minutos. como alguns sabem, tenho um problema com títulos...por isso, confesso, foi essencialmente nisso que andei a pensar durante estes meses...


9.6.09

statement shoes para dia 30

boa tarde senhoras e senhores, estou aqui para falar de descrições e espero não vos maçar até à morte. sintam-se à vontade para me interromper se estiver a ser obscura e de acenar se estiverem quase a adormecer...

8.6.09

sem paciência para rorty e sem coragem para tolstoi. a emissão seguirá dentro de momentos.

4.6.09

LDC soundsystem estão a tocar na minha biblioteca



quem não acredita em fenómenos de dança espontânea, venha cá a cima às mesas atrás da literatura grega


uma princesa fechada numa torre de janelas. oh se apenas não tivesse as mãos algemadas às folhas que tem de escrever... uma princesa, coitada, condenada a não parar nunca de escrever, mesmo quando já não é humanamente possível ter alguma coisa para dizer. e não há princípe nem dragão que acabem com o seu sofrimento.

2.6.09


já não tenho posição nem paciência.
não há janela que disfarce: uma biblioteca cheia é sempre uma biblioteca cheia. com todos o cheiros e burburinhos que isso implica.

26.5.09

se te serve de consolo...

25.5.09

anda cá mano a mano






a minha ridícula agenda para esta semana: segunda: lutar contra a preguiça; terça: lutar contra a preguiça e contra Freud; quarta: lutar contra a preguiça, contra Freud e contra a tentação; quinta, concentrar-me em Freud; sexta: andar descalça (para chamar o verão); fim de semana: reparar as feridas e arranjar as unhas. boa semana a todos.

19.5.09

eu bem sabia

6.5.09

4.5.09

não chega dizer pra niguém. é preciso dizer com letras gordas.
.
.
saudades.
.
não.
é preciso dizer de modo a que não restem dúvidas, não deixar nada por dizer.
.
.
tenho saudades tuas.
(nada mais, nada menos)

It would not only be more human, it would be more humble of us to be content to be complex
g.k.chesterton